Pizzas frita

A partir de uma memória de infância em Resende (RJ), o artigo reflete sobre a pizza frita como expressão da cultura local e das diferentes formas de enxergar a culinária brasileira.

4 minutos de leitura
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Durante boa parte da minha infância, morei em Resende, no interior do estado do Rio de
Janeiro. E lá eu aprendi algumas verdades, que por anos, considerei serem universais, e
a pizza frita era uma delas.

Pizza frita era pizza frita, simples assim. Desde a minha infância na escola lá na
vendinha da dona Guiomar até adulta não havia muito o que explicar. Era uma massa
macia, meio adocicada, dobrada ao meio, recheada e mergulhada no óleo até sair
dourada, quente e com grandes possibilidades de recheios. Podia ser de queijo,
presunto, carne, frango, calabresa ou qualquer outra combinação capaz de caber lá
dentro.

Em Resende, existem até estabelecimentos especializados nisso. Eu não estou falando
de nenhuma invenção da minha família, ou um delírio coletivo da vizinhança menos
ainda de uma receita obscura encontrada em algum caderno de receitas de avó. A pizza
frita existe, é vendida, tem diversos recheios e testemunhas que podem comprovar a
veracidade dos fatos aqui descritos.

Mas bastou eu me mudar de cidade para que ela desaparecesse da realidade.

Há uns dez anos, parei para comer em uma lanchonete, e enquanto eu observava os
salgados expostos, encontrei minha velha conhecida com sua massa gordinha, fechada,
frita e recheada que eu conhecia bem desde criança.

Fiz meu pedido com a segurança de quem sabe exatamente o que está fazendo:

– Oi, eu quero uma pizza frita, por favor!

A atendente anotou o pedido e na sequência me trouxe um pedaço de pizza. Uma pizza comum, como estamos acostumados a ela assada, com queijo por cima, aberta, sabe?

Olhei para o prato e depois olhei para ela, imaginando que se tratava apenas de uma confusão, que pode acontecer com qualquer pessoa:

– Não, moça. Eu pedi uma pizza frita

Ela também olhou para o prato. Depois olhou para mim, como quem tentava descobrir qual parte daquela pizza não estava correspondendo às minhas expectativas.

– Então, tá aí.

– Não, não. Isso é uma fatia de pizza. Eu pedi pizza frita, sabe? A frita?

E a partir de então se iniciou aquele momento em que duas pessoas, falando o mesmo idioma, percebem que não estavam falando a mesma língua.

Ela mascou o chiclete com mais intensidade, atendente franziu a testa e soltou:

– Quê? Pizza frita não existe.

Eu olhei para ela com a certeza de que aquela jovem saiu de casa apenas para me insultar, óbvio. Porque, na minha cabeça, é claro que só poderia se tratar de uma brincadeira de mau gosto. Pizzas fritas existiam, sim. Chateada pela afronta, porém totalmente convicta da minha certeza, fui até o balcão e apontei para o salgado que eu estava me referindo:

– Aquele ali, que eu estou pedindo. Uma pizza frita.

Ela olhou para o salgado, ergueu uma sobrancelha, olhou na minha direção novamente, com a expressão no rosto que dizia “eu não ganho bem pra isso”

– Isso aí é pastel chinês.

Eu engoli minhas palavras a seco, percebi que a discussão não levaria nada a lugar nenhum. Desisti. Optei pela coxinha, que pelo menos parece conservar o mesmo nome em território nacional.

Mas essa não foi a primeira vez que um salgado confundiu minhas certezas geográficas. Também levei algum tempo para entender que joelho, italiano e enroladinho são exatamente a mesma coisa composto por massa assada enrolada com queijo e presunto ou presunto e queijo. O mesmo salgado que bastava atravessar certas localidades que ganhava uma nova identidade, como se estivesse fugindo de alguma coisa.

Pode ser que os salgados, frutas e pães brasileiros possuam vidas secretas. Mudam de nome conforme o território, criam novas biografias e deixam pessoas discutindo diante de suas presenças. O enroladinho de queijo e presunto ora homenageia uma parte do corpo, ora reivindica uma nacionalidade. A pizza frita, quando desce a Serra das Araras, torna-se pastel chinês. E eu não vejo ninguém estranhar o fato de uma receita supostamente italiana ganhar cidadania chinesa ao chegar à capital.

Tempos depois do ocorrido, fui visitar minha família em Resende. Lá, a pizza frita continuava existindo tranquilamente, alheia à controvérsia. Ninguém me olhou como se eu fosse uma alienígena, me julgou ou tentou me ofender com um pedaço de pizza.

Para compensar o tempo perdido, e provar para mim mesma que eu não estava em surto e nem inventando nada, comi uma pizza frita de cada recheio. Era minha pesquisa de campo. Hoje eu já tenho um pouco mais de maturidade para saber que podem chamar pizza frita de pastel chinês. Também aceitei que joelho, italiano e enroladinho sejam o mesmo salgado. Mas continuo desconfiando um pouco.

Porque quem me garante que a coxinha que eu tanto admiro e que comi naquele dia tenha sido mesmo apenas uma coxinha, já que os salgados podem mudar de nome tão facilmente?

Um comentário

  1. Olha, o lance do nome do Italiano (me recuso a chamar de qqr outra coisa kkkkk) tem uma lenda rezada aqui pelas terras de Niterói/São Gonçalo: diz-se que quando o quitute, inventado por um imigrante italiano residente de Niterói (foi sendo chamado de “salgado do Italiano” até a simplificação comum ao falante — que é um tremendo preguiçoso — foi removendo o conectivo, depois decompondo o substantivo) começou a ser vendido na Confeitaria Colombo, no centro do Rio de Janeiro, ele era exposto logo abaixo da Coxinha e, portanto, foi chamado de Joelho. Além de lúdica, uma aula de anatomia básica.

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