Jéssica Almeida
História • Cultura Pop • Produção Cultural
Eu não sei se já contei o quanto acho fascinante a influência da cultura pop na nossa vida. Às vezes fico naquela dúvida meio filosófica, meio de quem está procrastinando, mas nem tanto, é a arte que imita a vida ou é a vida que imita a arte? Ou será que, depois de tanto tempo se copiando, já não existe separação?
Foi numa dessas, entre realidade e ficção, que eu tive certeza absoluta de que possuía todas as informações necessárias para me aventurar sozinha pelo Centro do Rio de Janeiro.
Eu estava no auge de toda sabedoria dos meus vinte e poucos anos, idade em que a gente não necessariamente sabe alguma coisa, mas tem uma convicção admirável de que sabemos de tudo porque já vivemos tempo o suficiente. E lá fui eu receber uma encomenda na rodoviária do Rio.
Antes que você pense e pergunte “ué, mas não tinha internet?”, tinha. Não com a facilidade de hoje, é verdade. Não dava para simplesmente abrir o celular e ter acesso a todas as informações do mundo. Mas internet já existia e eu tinha algum acesso a ela. O problema, naquele dia, definitivamente não era a falta de tecnologia. Era a minha falta de bom senso.
Sem perguntar muito, eu e a pessoa combinamos dia, horário e local. Tudo certo e estava marcado. E lá fui eu, munida da certeza que talvez, muita informação aleatória e zero noção da dimensão do que estava prestes a fazer.
Antes das 11h, eu estava saltando na Central.
Sim. Na Central do Brasil.
E, sinceramente, na minha cabeça fazia todo sentido.
Eu já tinha assistido várias vezes ao filme Central do Brasil. E, gente, Fernanda Montenegro jamais mentiria para mim. Portanto, se alguém havia dito “Central do Brasil”, obviamente estávamos falando da rodoviária. Mas o detalhe é que não.
Passei horas circulando por aquele lugar com a confiança de quem estava, no máximo, esperando pelo meu pai ou por um namoradinho, sei lá. Enquanto eu procurava uma pessoa que eu nunca encontrei, comecei a observar tudo ao meu redor.
Comecei pelas vitrines de que tinham alguns salgados tristes e já deformados, depois prestei atenção nas pessoas andando depressa, como se todas tivessem um compromisso urgente que eu não tinha, também tinham pessoas pedindo dinheiro contando histórias tristes sobre filhos, parentes, necessidades e tragédias pessoais.
Ah, mas tinha a galera discutindo o próximo jogo e o desempenho do Flamengo. Outras reclamando do calor. Além disso, olhei as atendentes de lanchonete apoiadas no balcão, com aquela expressão de quem está somente de corpo presente até o fim do expediente. Algumas pessoas tinham olhar de cansaço. Outras tinham olhar de quem já tinha visto o suficiente da humanidade naquele dia, e não queriam mais interações.
E eu, no meio de tudo isso, procurando a minha encomenda. Embora eu devesse estar procurando minha noção. Até que, em algum momento, veio a revelação de que a Central do Brasil não era a rodoviária do Rio de Janeiro. Mas eu descobri isso da maneira mais eficiente possível, depois de andar por horas em um lugar onde eu sequer deveria estar procurando nada, e perguntar a um popular.
E foi aí que percebi que talvez eu devesse ter pesquisado um pouco melhor o endereço.
Porque o Rio de Janeiro, gosta de garantir que todo mundo passe por essa demonstração bastante particular do seu senso de humor, e nessa ele decidiu que uma cidade já enorme precisava ainda de nomes suficientemente parecidos para transformar qualquer pessoa desavisada em personagem de uma caça ao tesouro.
Vem comigo, tem a rodoviária interestadual, a rodoviária municipal da rodoviária, a Central com trens e metrô e rodoviária da Central.
E provavelmente existiam outras variações que eu simplesmente não tive tempo de descobrir por que eu precisava, antes de tudo, voltar para casa para assimilar toda aquela informação.
Mas pensando hoje, eu até entendo de onde veio a minha confusão. Porque na minha cabeça, a Central era uma espécie de Terminal Tietê Carioca, em que você chegava de uma viagem interestadual, desembarcava ali e, de lá, podia seguir para trem, metrô, ônibus e toda aquela maravilhosa engenharia de transporte urbano que permite que uma pessoa chegue a qualquer lugar, desde que tenha bastante paciência.
Só que não era bem assim.
A Rodoviária Novo Rio, por exemplo, nunca me passou exatamente essa sensação de “seja bem-vindo ao Rio”. Durante muito tempo, sair de lá parecia sinônimo de “veio de ônibus por que quis, agora paga um taxi caro aí ou se vira”.
Hoje até existem outras alternativas e, com o Terminal Gentileza, a situação melhorou bastante para quem precisa continuar o trajeto. Mas eu não estou aqui para fazer uma tese sobre mobilidade urbana.
Até porque eu comecei esta história falando de cinema e, em algum momento, transformei tudo numa reclamação sobre o sistema de transporte do Rio, desculpa por isso. O que eu queria mesmo dizer é que, vez ou outra, eu me lembro daquele episódio e começo a rir sozinha. Mas é que eu acho que existe alguma coisa bonita nas memórias nossas próprias derrotas.
Naquele dia, eu não encontrei a pessoa da encomenda, não recebi o que fui buscar, e descobri que estava no lugar errado. Andei em círculos por horas sem saber exatamente o que estava procurando. Mas saí de lá com a certeza inabalável de que eu definitivamente não sabia tanto sobre o Centro do Rio quanto imaginava.
Pra ser honesta eu até gosto dessas histórias que começam ao acaso e se tornam tão boas, porque a gente passa anos acumulando informação, mapas, referências, filmes, memórias e opiniões até achar que conhece uma cidade.
Até o dia em que a cidade olha para você e de desafia “Ah, conhece? Então vem cá pra eu ver uma coisinha.”
E foi assim que, graças à Fernanda Montenegro, ao cinema brasileiro e uma encomenda que eu nunca recebi, eu descobri que ainda tinha muito o que aprender sobre o Rio.
Principalmente sobre onde, exatamente, ficava a tal rodoviária.