Engarrafamento de gente

Em um dia de calor carioca às vésperas do Natal, uma ida aparentemente simples a Madureira foi uma pequena epopeia urbana.

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Foi em 2018 ou 2019, eu não sei ao certo. Me lembro apenas que estava perto do Natal, estavam marcando todos os graus possíveis no termômetro e eu, tomada pela forma mais sincera de tédio possível, resolvi que eu PRECISAVA ir a Madureira comprar coisas. Eu poderia ter ido à praia ou ir tomar um sorvete na esquina, sim. Mas resolvi que não.

E hoje eu entendo que o universo tentou me impedir e eu ignorei.

Ainda no ponto de ônibus, peguei o celular para pesquisar qual linha me levaria naquela aventura necessária e descobri que era a 790. Perguntei a um popular se o setecentos e noventa já tinha passado. Ele fez uma expressão de interrogação, na qual cerrou os olhos, levou as mãos até a boca e finalmente respondeu que nunca tinha ouvido falar naquela linha. A partir desse momento éramos dois com cara de dúvida. Expliquei que eu queria ir para Madureira. Aí ele entendeu e exclamou:

– Aaaah, tu tem que pegar o sete e noventa, pô. Ele te deixa lá.

Meu primeiro pensamento foi: caramba, que passagem cara.

Ele, naquela solidariedade carioca que está sempre pronta para ajudar seja quem for, ainda confirmou com outros populares que estavam próximos, incluindo todo mundo na conversa. Todos muito seguros de que o tal sete e noventa me levaria ao meu destino, embora o misterioso setecentos e noventa aparentemente jamais tivesse circulado por aquelas bandas ou era conhecido. Até que, vindo de lugar nenhum, surge o bendito e o rapaz super prestativo apontou e gritou:

– É esse aí, ô. Pode pegar é ele mesmo o sete e noventa.

Olhei. E lá vinha ele, imponente, com seu letreiro brilhante indicando: 790 – Cascadura.

Foi nesse momento que tudo fez sentido. E, ao mesmo tempo, que nada fazia sentido. Agradeci e tomei meu rumo ignorado.

Chegando em Madureira, o drama começou cedo. Primeiro porque todas as partes do meu corpo suavam de um jeito que eu nem sabia que aquilo era humanamente possível. Depois, porque todo o barulho me deixou tão confusa que até hoje não sei descrever como me senti exatamente. Não era só calor. Era um tumulto tão completo, tão sonoro, tão vivo, que eu me sentia levemente desequilibrada, como se o meu eu tivesse seguido viagem naquele sete e noventa.

Andei um pouco, ou pelo menos tentei, e cheguei rapidamente à conclusão de que comprar qualquer coisa fosse um plano superestimado. Resolvi atravessar a passarela, e foi ali que me vi presa em um engarrafamento de gente.

Eram tantas pessoas subindo, descendo, vendendo, fazendo sua fezinha, vivendo, que eu tive a impressão de que existia um semáforo em algum lugar que coordenava tudo, porque quando um lado andava, o outro parava. Quando um respirava, o outro empacava. O trajeto, que em qualquer dia normal levaria menos de dez minutos, me consumiu algo em torno de cinquenta. Talvez mais. Eu nunca vou saber ao certo.

Desistir já não era uma opção. Eu não tinha para onde fugir. Estava oficialmente engarrafada. E já sem recursos hídricos para aguentar a jornada.

Olhei para um vendedor de cerveja, até considerei a possibilidade, mas concluí que aquela decisão provavelmente me faria desmaiar de forma vexatória em algum canto da passarela. Optei por comprar uma água, estupidamente gelada, por apenas um real. Aquele era um sinal divino, só poderia ser Deus aliviando um pouquinho para o meu lado.

Não, eu não desconfiei de nada.

Depois do primeiro gole desesperado percebi que aquela água tinha gosto. E também tinha uma certa cor, o que nunca é exatamente um bom sinal quando o assunto é água, sem contar que era de uma marca que eu nunca havia antes visto. Mas eu estava com tanta sede, tão vencida pelo calor e pelo fluxo humano, que apenas respirei fundo e terminei a garrafinha mesmo assim. Se eu sobrevivesse ao engarrafamento de gente, sobreviveria também à água de procedência duvidosa.

Quando finalmente terminei aquele trajeto, eu já não sentia mais nada. Não sentia calor, nem irritação, pressa ou esperança. Eu já não sabia quem eu era, onde eu estava ou por que tinha achado que ir a Madureira, naquele calor de dezembro, seria uma boa ideia. Só conseguia me perguntar quem foi que inventou aquilo tudo e o que, exatamente, eu estava fazendo ali.

Depois de vagar por um tempo, igual a um balão apagado, algo que durou entre dez minutos ou talvez dois dias, cheguei à quadra da Império Serrano e resolvi entrar para dar uma olhada. E foi aí que tudo mudou.

Naquele breve instante, o caos deu uma pausa. Meu corpo e minha mente, que até então operavam em estado de calamidade, descansaram por alguns minutos. Fiquei maravilhada com o lugar, com a energia, as cores, as bandeiras. Comecei a imaginar tudo o que já tinha acontecido ali, tudo o que aquele espaço já tinha visto, ouvido e sentido. Pela primeira vez naquele dia, desde que saí de casa, não tinha o porquê reclamar de nada.

Mas eu precisava ir embora.

E, para voltar… bom, isso eu conto outra hora.

E se você quiser saber como foi essa volta deixa aí nos comentários 😊

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