A nova cara da velha política brasileira

Uma reflexão sobre como práticas políticas antigas continuam presentes no cenário brasileiro, apesar das mudanças na forma de fazer campanha.

13 minutos de leitura
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Quando eu era criança, e antes mesmo de ter noção do que era um título de eleitor, eu já
participava dos showmícios que aconteciam pela cidade. Aquilo para mim era mágico,
porque era um momento de festa que eu poderia ver shows de artistas do momento
gratuitamente, e quando aconteciam na esquina da minha casa, então, era indescritível!
E nós ainda ganhávamos um monte de brindes como camisetas, bonés, doces… eu não
sabia direito o que tudo aquilo significava, eu só sabia que em determinado momento
alguém iria subir no palco para falar sobre campanha, mas não importava tanto.

Entretanto, alguns familiares já me alertavam que não havia nenhum problema em
participar daquelas celebrações, mas que chegaria um determinado momento que eu
também precisaria votar e para isso eu teria que ter responsabilidade de saber quem era
a pessoa, se ela conhecia a cidade, ou pelo menos o bairro, e se ela já havia estado ali
antes ou em quais situação ele ou ela apareceram.

Pois bem, os showmícios, que eram comício eleitorais que aconteciam junto com shows
musicais e/ou artísticos, e a distribuição de brindes por candidaturas foram proibidos
pela minirreforma eleitoral de 2006. A proibição permanece na legislação atual,
inclusive para eventos que são transmitidos pela internet. E é desse ponto de partida que
eu comecei a pensar, aparentemente a legislação acabou somente com a forma mais
explícita do espetáculo, mas não eliminou sua lógica.

O showmício saiu do palanque montado nas ruas e invadiu os feeds de diversas
plataformas.

Os brindes adquiriram nova cara se tornando identificação emocional, os likes e
compartilhamentos. Os artistas contratados agora são o próprio candidato que assumiu o
papel de apresentador, personagem e influencer. O trio elétrico foi trocado pelo
microfone de lapela. E as promessas de cima do palco passaram a serem gravadas na
vertical, editadas rapidamente, acompanhada por música dramática e legendas em
tamanho grande.

A velha política nunca desapareceu, só deu uma repaginada na sua estética.

A política que nunca deixa de estar em campanha

Existe um conceito nos estudos de comunicação chamado campanha permanente. Ele descreve uma política na qual a construção da imagem eleitoral não começa apenas durante o período oficial das eleições, e continua durante todo o mandato.

Nesse modelo, governar, comunicar e preparar a próxima eleição tornam as atividades cada vez mais misturadas. Entregas administrativas, visitas, reuniões, conflitos e até situações cotidianas passam a ser convertidos em conteúdo para manter o político permanentemente visível.

Um estudo de caso, baseado em 359 publicações de Flávio Dino no Facebook, publicado na Revista Internacional de Relaciones Públicas, sustenta como agentes políticos podem utilizar as redes para obter visibilidade pública fora do período eleitoral. A análise também encontrou uma combinação complexa de que as redes podem servir à prestação de contas e à divulgação de informações públicas, mas também ao marketing político e à manutenção estratégica da imagem do governante.

Uma pesquisa mais recente, na revista Contracampo, que pertence ao Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal Fluminense – UFF, analisou 55 vídeos publicados pelo governador Romeu Zema no TikTok durante 2023. Os pesquisadores identificaram conteúdos voltados à publicidade institucional e ao discurso promocional, com o próprio governador ocupando o papel de protagonista na maioria das publicações.

Isso é importante porque impede uma conclusão simplista. Nem toda publicação de político é necessariamente manipulação. Comunicar o mandato, explicar políticas públicas e prestar contas à população são práticas legítimas e necessárias.

A questão começa em ‘onde termina a informação pública e começa a propaganda pessoal?’

Quando uma ação do Estado é apresentada como um favor individual do político, é problemático. O mesmo quando servidores, instituições e políticas públicas desaparecem da narrativa para que somente uma pessoa apareça como responsável por tudo, o direito coletivo começa a ser transformado em dádiva particular. E a partir disso passa a ser “escola não foi reformada pelo Estado, foi ele quem reformou”; “o serviço não foi financiado por impostos e executado por trabalhadores públicos, ele quem trouxe” e tantos outros exemplos que ouvimos por aí.

Nesse processo, a política deixa de ser apresentada como construção coletiva e passa a depender da imagem de uma pessoa salvadora.

A fiscalização como gênero de entretenimento

Sabe aqueles vídeos de “fiscalização”? Eles me incomodam um tanto. Porque os roteiros costumam ser parecido em que o político recebe uma denúncia, chega ao local acompanhado por uma câmera, encontra uma irregularidade, demonstra indignação, confronta alguém e encerra o vídeo prometendo providências.

Tudo pensado e roteirizado para produzir aquela sensação imediata de justiça. Tem o problema, o culpado, o herói e a possível resolução, tudo para caber em poucos minutos. Só que problemas públicos raramente são tão simples assim.

Um hospital sem o básico para atendimento, escolas abandonadas, ruas sem saneamento ou serviços funcionando de forma precária não surgiram naquele dia. São situações que envolvem orçamento, contratos, falta de servidores, decisões administrativas, prioridades políticas e anos de omissão. Portanto, a visita filmada pode sim ser parte de uma fiscalização legítima. Mas começa a ser problemático quando ela substitui todo o restante. Vereadores, por exemplo, têm entre suas atribuições fiscalizar os atos do Poder Executivo, acompanhar políticas públicas, examinar contas e participar da definição e do controle do orçamento municipal. A fiscalização institucional não se resume a somente entrar em um lugar filmando, precisa de acompanhamento, documentos, análise orçamentária, cobrança formal e, principalmente, verificação dos resultados.

E por isso mesmo que precisamos questionar depois que o vídeo termina “o que aconteceu quando as câmeras foram embora?”. Também é interessante que a gente saiba se: houve requerimento de informação? Contratos foram examinados? A denúncia foi formalizada? O orçamento foi alterado? Houve audiência pública, relatório, ação de uma comissão ou acompanhamento posterior? O problema foi realmente resolvido ou foi só engajamento?

Quando a fiscalização termina junto com o vídeo, não estamos diante de uma ação pública completa, e sim de uma encenação política produzida a partir da dor de outras pessoas.

Da democracia de eleitores à democracia de fãs

Estudos sobre a presença de parlamentares nas redes sociais sugerem que a comunicação política está cada vez mais concentrada na personalidade dos representantes.

Como no artigo publicado pela Revista de Informação Legislativa do Senado que descreve uma política na qual os representantes se dirigem ao público utilizando técnicas semelhantes às dos programas de auditório. Nesse ambiente, o espetáculo, a proximidade e a personalidade do político podem ganhar mais espaço do que os programas partidários. Os autores chegam a utilizar expressões como “democracia de fãs” e “legitimidade de proximidade” para explicar a interação constante entre políticos e seguidores.

E a diferença entre eleitor e fã não é pequena. O eleitor avalia, compara, cobra e pode mudar de posição. Já o fã tende a defender o personagem, justificar seus erros e interpretar qualquer crítica como um ataque pessoal, não nos faltam exemplos de fandoms por aí, né não?

Nesse modelo, o candidato não precisa necessariamente demonstrar capacidade para formular políticas públicas. Ele precisa manter sua comunidade mobilizada, produzir identificação e alimentar a sensação de que está permanentemente lutando contra algum inimigo. Então a política passa a funcionar pela lógica de temporadas em que toda semana precisa haver um novo conflito, uma nova denúncia, um novo absurdo e uma nova demonstração de coragem.

Um estudo disponível na SciELO sobre o uso do TikTok por políticos brasileiros analisou cerca de 23 mil vídeos de 265 perfis, pertencentes a representantes de diferentes partidos, regiões e níveis de governo. A pesquisa investigou justamente a incorporação de recursos típicos da plataforma, como tendências, filtros, dublagens e outras linguagens associadas aos influenciadores digitais.

Outra pesquisa analisou 11.263 publicações de 19 candidaturas presidenciais brasileiras nas eleições de 2018 e 2022. Os pesquisadores encontraram forte presença da personalização e de imagens que aproximavam emocionalmente os candidatos dos eleitores.

Mas é importante destacar que falar de maneira acessível não significa que seja errado, muito pelo contrário. A política precisa ser compreensível, popular e capaz de dialogar com quem foi historicamente afastado das decisões.

Assim sendo, a questão não é um político saber ou não usar o TikTok. O problema começa a existir quando a plataforma passar a definir como ele faz política. Afinal, precisamos lembrar que falar com as pessoas não é o mesmo que construir com elas. Existe uma linha tênue entre aproximação e cooptação.

Durante muito tempo, a política institucional usou uma linguagem burocrática, distante e inacessível. Por isso, pode ser profundamente democrático que representantes utilizem memes, vídeos, músicas, humor e exemplos cotidianos para explicar assuntos públicos. Mas ao mesmo tempo que linguagem acessível não pode ser confundida automaticamente com ter compromisso popular.

Um candidato pode conhecer as gírias de uma comunidade sem conhecer suas necessidades. Pode visitar um projeto social e não fortalecer sua autonomia. Pode defender uma pauta diante das câmeras e abandoná-la quando ela exige orçamento, enfrentamento político ou divisão real de poder.

Também pode se aproximar de jovens, mulheres, pessoas negras, trabalhadores, moradores de favelas ou integrantes de movimentos culturais não porque reconhece esses grupos como sujeitos políticos, mas porque enxerga neles públicos eleitorais disponíveis. Cooptação acontece quando uma causa deixa de ser tratada como luta coletiva e passa a servir como cenário para a construção da imagem de um alguém. Aí a pessoa aparece na foto, mas não participa da decisão. O projeto é citado, mas não recebe nenhum tipo de recursos. A comunidade é visitada, mas não é ouvida. A pauta é celebrada, mas quem a construiu durante anos permanece lá invisível.

E acredito que talvez essa seja uma das faces mais perversas da nova velha política, que aprendeu a usar a linguagem da representatividade sem repartir protagonismo, recursos ou poder.

A gramática do algoritmo

As redes não são espaços neutros. Elas possuem sistemas de recomendação que interferem na circulação dos conteúdos. Pesquisas sobre mandatos digitais observam que a antiga mediação editorial dos veículos de comunicação foi parcialmente substituída pela mediação algorítmica das plataformas. Isso contribui para a formação de bolhas, para a segmentação das mensagens e para estratégias políticas direcionadas a grupos específicos.

Um estudo publicado em 2026, a partir do contexto das eleições municipais de 2024, discute como a lógica algorítmica, os influenciadores e a circulação de conteúdos nas plataformas passaram a interferir na visibilidade e na construção das estratégias políticas. O algoritmo não pergunta qual candidato apresentou o melhor projeto de saneamento. Ele observa qual vídeo fez mais pessoas parar, comentar, compartilhar ou se revoltar. Por isso mesmo que a indignação pode deixar de ser apenas uma reação política e passar a ser uma estratégia de distribuição. E aí quanto maior o conflito, maior a possibilidade de alcance. Quanto mais simples o culpado, mais fácil construir a narrativa e quanto mais heroico o político parecer, maior a chance de criar vínculo com a audiência. A miséria, vulnerabilidade e abandono se tornam, então, a matéria-prima perfeita para conteúdo. Não é necessário resolver completamente o problema. É necessário produzir a sensação de que alguém finalmente teve coragem de ir lá e enfrentar o vilão.

Uma nova esperança (?)

Quando olho para essas práticas, sinto, além da vergonha alheia, que nada mudou. A política da minha infância continua aqui muito presente, apenas mais jovem, mais rápida e mais bem editada. Mas é possível que alguma coisa tenha mudado, sim. Porque nós temos mais condições de acompanhar mandatos, consultar votações, acessar dados públicos, recuperar publicações antigas e comparar discursos com ações. As mesmas redes que favorecem a personalização e o espetáculo também nos permitem a fiscalização social, circulação de denúncias, educação política e organização coletiva.

A esperança não precisa estar em encontrar um parlamentar perfeito. Mas sim em desenvolver uma cidadania menos fascinada por personagens e mais interessada em processos. Podemos começar com perguntas simples, tipo:

Quando esse político começou a aparecer nesta pauta?

O que ele ou ela defendia antes do assunto ser popular?

Como votou quando teve a oportunidade de transformar o discurso em política?

Quais recursos destinou para solucionar o problema?

Quem trabalha na causa há mais tempo foi ouvido ou apenas utilizado para compor cenário?

Existe continuidade depois da publicação?

Quem aparece como protagonista na publicação: a comunidade ou o candidato?

A esperança, para mim, não está em acreditar que as redes democratizarão automaticamente a política. Também não está em abandonar completamente a disputa institucional. Ela está na possibilidade de transformar espectadores em cidadãos e seguidores em pessoas que fiscalizam e cobram.

Possivelmente, se a gente criar observatórios comunitários, acompanhar votações, registrar promessas, solicitar informações pela Lei de Acesso à Informação, comparar discursos com orçamentos e produzir nossas próprias narrativas sobre os territórios. Em vez de apenas compartilhar o vídeo indignado de um candidato, podemos perguntar qual foi o encaminhamento institucional e cobrar atualizações.

Temos ainda a opção de recusar a ideia de que um político “dá” direitos. Direitos não são presentes, menos ainda favores ou privilégios de alguns. Obras públicas não pertencem a vereadores, deputados, prefeitos ou governadores. O dinheiro público não sai do bolso deles. A função de um representante não é agir como um benfeitor, mas cumprir responsabilidades temporariamente confiadas a ele pela população.

O despertar da força (!)

Escrevo tudo isso porque sinto dor em reconhecer novas embalagens para velhos interesses. É frustrante perceber que causas legítimas, comunidades e problemas reais são transformados em ferramentas eleitorais. É doloroso assistir a pessoas que trabalharam durante anos por um território serem colocadas de lado quando alguém mais conveniente para a fotografia aparece. Mas eu também sei que compartilhar essa dor também pode ser uma forma de construir consciência.

Eu sei que assim como eu, outras pessoas estão observando as mesmas coisas, sentindo incômodo parecido e acreditando que se trata apenas de uma desilusão individual. Quando colocamos essas experiências em comum, percebemos que elas podem formar um diagnóstico político. E um diagnóstico coletivo com toda certeza é o que há de melhor para nortear um debate.

Quando criança, minha família me ensinou que o importante não era apenas olhar/ouvir o candidato durante a festa. Era observar se ele continuaria ali quando todos nós precisássemos.

O showmício acabou oficialmente há vinte anos. Mas sua lógica nunca desapareceu. Ela só aprendeu a caber na tela do celular. A diferença é que agora podemos reconhecer o espetáculo enquanto ele acontece.

E reconhecer o espetáculo é o primeiro passo para deixar de ser apenas plateia.

Referências e leituras

BARROS, Antonio Teixeira de; BERNARDES, Cristiane Brum; FARIA, Cristiano Ferri Soares de; BUSANELLO, Elisabete. Presença parlamentar nas mídias sociais: a estruturação dos mandatos digitais na Câmara dos Deputados. Revista de Informação Legislativa, 2021.

BRASIL. Lei nº 11.300, de 10 de maio de 2006, e Resolução-TSE nº 23.610/2019. Proibição de showmícios e distribuição de brindes eleitorais.

CHAGAS, Viktor; STEFANO, Luiza de Mello. Estratégias de uso do TikTok por políticos brasileiros. Revista de Sociologia e Política, 2023.

DE-LIMA-SANTOS, Mathias-Felipe et al. Visual political communication on Instagram: a comparative study of Brazilian presidential elections. EPJ Data Science, 2024.

MASSUCHIN, Michele Goulart; SILVA, Luana Fonseca. Campanha permanente nas redes sociais digitais: um estudo de caso da análise da fanpage do governador Flávio Dino, no Brasil. Revista Internacional de Relaciones Públicas, 2019.

MONTESSO JÚNIOR, José Agnaldo; OLIVEIRA, Luiz Ademir de. Campanha permanente nas plataformas de mídia social: análise do perfil do governador Romeu Zema no TikTok. Contracampo, 2025.

TERRA, Carolina Frazon; ANGELUCI, Alan César Belo; FARIAS, Marcello Tenorio de. A lógica da influência digital: como as redes sociais redefinem votos. Intercom: Revista Brasileira de Ciências da Comunicação, 2026.

2 comentários

  1. Eu amo pessoas que escrevem pra blog, citam artigos/livros e DÃO AS BENDITAS REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS! Obrigado.

    E concordo muito. Quando comecei a ler pensei em como a campanha presidencial do Bolsonaro começou por volta de 2004, quando eu via jovens no comecinho do que hoje chamamos de incel/redpill já falando sobre elegê-lo presidente. Aquilo já era campanha…

  2. Uma ótima reflexão! O que mudou e continua mudando é a tecnologia, mas as práticas continuam as mesmas, apesar fazendo os reajustes necessários para sobreviver.

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