Jéssica Almeida
História • Cultura Pop • Produção Cultural
Era março de 2023 e, em um misto de tédio (com um T bem grande) e uma vontade inexplicável de bater chinela de forma aleatória por aí, eu decidi que precisava ir para Brasília.
Eu já tinha um bom motivo.
Desde que me entendo por gente, eu queria conhecer a cidade de onde vieram tantas das bandas que eu ouço. Queria, principalmente, andar por Brasília como quem folheia um encarte da Legião Urbana para reconhecer os lugares, procurar nas ruas as paisagens que eu tinha imaginado ouvindo aquelas músicas e, claro, descobrir uma coisa que parecia de extrema importância para a minha existência que era saber se, de todos os cantos da plataforma, dava mesmo para ver a torre.
Só que eu precisava de mais um argumento para convencer meu companheiro oficial de viagens de que aquela não era apenas uma vontade impulsiva. E como quem procura acha, descobri que o Kiss passaria por Brasília em uma terça-feira, com sua turnê de despedida. Pronto. Juntei a fome com a vontade de comer. Ingressos e passagens compradas, hotel reservado. Era só fazer as malas e ir.
Fomos no dia 17 de abril e eu me lembro dessa data com um carinho especial porque, provavelmente, foi naquele dia eu experimentei altas doses de felicidade. Chegamos por volta das nove da noite. Antes do pouso, olhei pela janela do avião e fiquei paralisada diante da composição das luzes lá embaixo. Era assombrosamente lindo.
Pode ter sido o cansaço, a emoção ou simplesmente Brasília aparecendo pela primeira vez diante dos meus olhos. O fato é que fiquei alguns minutos olhando pela janela como se tivesse acabado de descobrir uma cidade secreta.
No dia seguinte seria o show. Como já estava tarde, pedi um lanche em uma rede de fast food e fiquei toda boba quando ele chegou. O lanche estava inteiro, quentinho, chegou rápido e, principalmente, parecia exatamente com o lanche dos comerciais de televisão.
Aquilo me emocionou mais do que deveria.
Mas eu sou uma pessoa que se emociona fácil.
Depois de comer, fiquei olhando para o prédio da Polícia Federal que ficava ao lado do hotel. A partir daquele momento, eu já saberia onde os jornalistas provavelmente paravam para noticiar os acontecimentos.
Quando olhei para o outro lado da rua, também achei que a cidade era muito moderna e desconstruída. Porque eu vi uns grandes meios arcos vermelhos, com um círculo entre eles, e por algum motivo minha cabeça decidiu que aquilo poderia ser um enorme sex shop ou algo do tipo. Acho que eu associei a estrutura ao fio dental de concreto do Sambódromo. Depois descobri que era só o shopping mesmo.
No dia seguinte, que seria o show, passei o dia inteiro ansiosa.
Como estávamos perto do Mané Garrincha, me arrumei e fui andando. Eu queria aproveitar a caminhada, sentir a cidade, olhar tudo.
Fiquei um pouco desapontada com a falta de vendedores ambulantes carregando isopor de cerveja.
Eu tinha ido para um show de rock em Brasília. Esperava que alguém surgisse do nada vendendo uma cervejinha. Felizmente encontramos um pelo caminho.
Entramos e logo começou o show do Deep Purple, que eu nem tinha percebido que tocaria naquela noite. Confesso que eu não sou tão fã da banda, embora “Smoke on the Water” tenha sido a primeira música que aprendi a tocar na adolescência. Ainda assim, achei o show maravilhoso.
Entre uma apresentação e outra, enquanto aconteciam as trocas e os ajustes de palco para o Kiss, um homem alto resolveu parar exatamente na minha frente.
Eu e meus modestos 1,58 de altura estrategicamente posicionado bem no fundo, tentando garantir pelo menos uma visão parcial do palco.
Olhei para o sujeito. Olhei para o espaço gigantesco que existia ao redor dele. Olhei novamente para o sujeito. E fiquei muito irritada. Enquanto conversávamos, alguém perguntou por que eu estava brava. Era a brecha que o sistema queria, respondi aos berros:
“P****, esse F**** DA P*** parou bem na minha frente com TANTO espaço vazio!”
O homem parece ter ouvido. E deu uma discretíssima chegada para o lado.
E, quando se virou, meu coração quase errou as batidas.
Era o vocalista da Plebe Rude.
A banda que eu sempre ouvi.
O desconhecido com quem estávamos conversando não se aguentou e começou a rir da situação ridícula.
E eu, com o sorriso mais sem graça do mundo, pedi uma foto.
Ele foi extremamente atencioso, posou com a gente e provavelmente voltou para casa sem saber que, durante alguns segundos, havia sido o maior inimigo público de uma mulher de 1,58 em um show.
Quando finalmente chegou a hora do Kiss, eu entendi por que eles são eles. Foi mágico, intenso e libertador. Eu entendi que o filme Detroid Rock City faz sentido.
No dia seguinte, acordei me sentindo um pouco indisposta e achei melhor procurar um hospital. Na recepção, eu deveria ter entendido os sinais do universo e desistido para ir a uma farmácia me automedicar. Mas insisti.
O recepcionista perguntou meu endereço e respondi. Ele ficou irritado. Disse que eu não estava falando coisa com coisa. Perguntou a cidade, respondi Rio de Janeiro, e na sequência perguntou o bairro, e prontamente respondi Realengo.
Ele se irritou ainda mais.
Disse que Realengo não existia.
Depois de alguns minutos resmungando sobre a minha questão territorial, meu cadastro ficou assim: bairro Rio de Janeiro, cidade Rio de Janeiro, estado Rio de Janeiro. Eu não tinha forças para discutir.
Entrei para o atendimento, relatei os sintomas e fui examinada por um jovem médico que, ao final, me desejou muita força. Saí de lá sem receita, sem medicação e com um desejo sincero para que eu melhorasse.
Como aparentemente eu estava em Brasília para viver perigosamente, me automediquei e continuei explorando a cidade.
Naquela noite, fui a uma festa que acontecia em um bar perto de onde eu estava hospedada. E me senti completamente deslocada. As pessoas pareciam felizes perto de um refletor enorme enquanto um som mecânico tocava. Aquilo foi um choque cultural. Naquele momento, olhando aquela cena, eu simplesmente não conseguia entender nada.
Mas eu consegui aproveitar bastante o tempo que passei por lá. Também descobri que Brasília não é exatamente uma cidade feita para quem decidiu resolver tudo andando a pé, e depois de passar o dia todo ressecada por inteiro entendi que o clima lá é seco, mas também fui a muitos dos lugares citados nas músicas do Legião Urbana.
Inclusive consegui subir ao alto da Torre de TV e ainda atravessei o Eixão para assistir aos shows do aniversário de Brasília e assisti ao show da Joelma, da Banda Calypso, e vi o Fundo de Quintal.
E, depois de alguns dias andando por Brasília com a curiosidade de quem tá procurando pistas de uma história que já conhecia pelas músicas, finalmente resolvi uma das grandes questões que me levaram até lá. Sim, dá para ver a torre de todos os lugares da plataforma.
Tédio com o T, bem grande pra você! Moro em Brasília, moro em Brasília…