No fim da fila

Entre filas da lotérica do bairro e as esperas intermináveis para consumir, esta crônica reflete, com humor e memória, sobre como as filas mudaram de sentido. Antes, eram espaços de conversa, notícias e convivência; hoje, muitas vezes, pagamos caro apenas para esperar a oportunidade de esperar para pagar ainda mais.

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Alguém sabe me dizer quando normalizamos fazer fila para absolutamente tudo?

Fila física, virtual, para entrar, para comprar, para retirar o que foi comprado e até, dependendo do lugar, uma filinha marota para conseguir sair. Hoje em dia, até comprar um saquinho de pipocas (isso mesmo que você leu: PIPOCAS) no meio da praça requer um planejamento estratégico, água na bolsa e disposição emocional.

O que me intriga nesse relato é que eu nem sempre encrenquei com filas.

Quando era mais nova, principalmente durante as férias escolares, eu chegava a pagar uma conta por dia só para passar mais tempo na fila da lotérica do meu bairro. Em vez de juntar todos os boletos e resolver a vida de uma vez, eu distribuía aquela obrigação ao longo da semana, sempre depois do almoço, porque dava tempo de chegar e assistir sessão da tarde e na sequência Malhação.

Sim, eu estou falando daquela época, que eu não tinha celular menos ainda acesso à internet. Filas eram minhas redes sociais presenciais. Ali eu ficava sabendo das notícias do bairro, ouvia as reclamações sobre o preço das coisas, as receitas de bolos, as histórias de família e, evidentemente, informações com riqueza de detalhes sobre a vida de pessoas que às vezes eu não fazia a menor ideia de quem era.

Sempre tinha alguém que sabia quem tinha se separado, quem estava devendo, quem havia arrumado emprego e quem dizia que estava trabalhando, mas era visto todos os dias jogando sinuca no mesmo bar.  A fila da lotérica era jornal, programa de culinária, central de denúncias, consultório sentimental e assembleia comunitária. Tudo isso sem cadastro, senha ou termos de uso. Bastava chegar e se integrar nas conversas. Mas tinham aquelas pessoas odiavam esperar. Eu gostava. Na fila, eu observava, escutava, aprendia e soltava as melhores gargalhadas.  

Mas o mundo segue mudando. Hoje temos apps para pagar contas, fazer transferências, aplicativos para aplicativos, pedir comida, comprar ingressos e acompanhar, em tempo real, a localização de praticamente qualquer coisa. As agências bancárias a cada dia estão desaparecendo, os caixas diminuindo e muitos serviços que antes exigiam tempo e deslocamento agora cabem dentro do celular.

Acompanha comigo, seria razoável a gente imaginar que, com tanta tecnologia, passaríamos menos tempo em filas. Ledo engano. As filas não acabaram, além disso ficaram ainda mais absurdas (pode imaginar o Sérgio Malandro pulando na sua tela e gritando “ié ié”).

Agora fazemos filas quilométricas para entrar em eventos cujos ingressos foram pagos, muitas vezes por valores nada modestos. Depois da fila de esperar para entrar, podemos nos dirigir novamente para fila de comprar uma bebida, comida, qualquer produto ou até mesmo para as filas de brindes para no fim dela a gente ganhar um adesivo. Ou seja, pagamos caro pela oportunidade de entrar em um espaço em que filas parecem ser a atração principal para aguardar a sua vez.

Também existem as filas de restaurante na hora do almoço. E essas são as que eu mais admiro os participantes pela estabilidade emocional em passar duas horas, ou mais, com fome até chegar à sua vez. Porque com fome, depois de uns vinte minutos, eu já começo a olhar ao redor e imaginar qual tempero combinaria melhor com cada pessoa por perto. Alecrim naquela pessoa que está reclamando desde o minuto que chegou. Páprica defumada no rapaz que pergunta a cada três minutos se a mesa já foi liberada. Alho, limão e pimenta no sujeito que tenta furar a fila fingindo que só está procurando alguém. É por isso que eu não fico. Não tem nada a ver com odiar filas, mas por respeito à integridade física dos demais presentes. Isso porque nem vamos falar do meu mau humor inexplicável.

Eu não tenho implicâncias com filas, juro. Até já organizei uma. E sei que algumas coisas realmente exigem organização, ordem de chegada e muita paciência.  A fila pode ser uma forma justa de garantir que ninguém passe na frente de ninguém, embora sempre apareça um disposto a testar essa teoria.

O que me pega são as filas que não deveriam existir. As que surgem sem necessidade, por pura falta de estrutura, má organização, exploração comercial ou pelo desejo coletivo de participar de alguma coisa simplesmente porque muitas outras pessoas também estão tentando participar. Quanto maior a fila, maior parece ser a promessa.

Se tanta gente está esperando, deve valer a pena. Será? Sei não, heim?

Às vezes fico com impressão de que a fila se tornou parte da experiência e eu não entendi isso antes. Parece que funcionam como prova de que estivemos em algum lugar importante, disputado ou exclusivo. Tempos depois, surgem as fotografias, os vídeos e reclamações de que o atendimento foi ruim, a comida não valia o preço, o evento estava lotado e ninguém conseguia fazer nada.

Mas todo mundo permaneceu lá.

Acho que algumas filas sejam um pretexto. Uma oportunidade de sentir que estamos indo a algum lugar, vivendo alguma coisa, participando de algo que outras pessoas também desejam. Até a reclamação depois parece estar inclusa no pacote.

As filas antigas me deixavam ligadas nas pessoas. As atuais, muitas vezes, parecem que só me deixam perto do consumo. Antes, não tinha muitas alternativas que não fosse encarar filas. Agora, quase sempre, escolhemos esperar, mesmo tendo diversas opções, porque estamos aprendemos cada vez mais a confundir procura com qualidade, lotação com importância e dificuldade de acesso com valor.

Eu continuo não odiando filas.

Só sinto falta de quando, depois de passar um bom tempo ali, pelo menos voltávamos para casa sabendo uma receita nova, umas três fofocas do bairro e quem estava devendo dinheiro na rua inteira.

Hoje, depois de horas desperdiçadas, às vezes voltamos apenas com uma pipoca fria, uma selfie para postar e uma reclamação pronta para a internet.

Só não entendi ainda por que continuamos entrando nelas.

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