O governo não dá nada pra ninguém, menina. Será?

Um bilhete da escola, a expectativa de um dinheirinho e uma descoberta sobre o governo. Da infância ao conceito de lulismo selvagem, uma reflexão sobre políticas sociais, direitos e o que acontece quando o povo resolve querer mais.

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Do Bolsa Escola ao lulismo selvagem, uma lembrança de infância sobre política, direitos e a descoberta de que o povo sempre pode querer mais.

Minha primeira lembrança de uma política pública não envolve eleição, discurso de presidente ou qualquer preocupação com os rumos do país. Mas envolve uma sala de aula, um bilhete e a possibilidade de comprar lanches durante o recreio escolar e revistas de adolescentes.

Eu estudava em escola pública, como sempre estudei até a graduação, e não consigo lembrar exatamente o ano mas eu tinha uns 10 ou 12 anos. Me recordo da orientadora entrando na sala para entregar um papel que deveríamos levar aos nossos responsáveis. Na minha memória, aquele bilhete tinha uns bonequinhos desenhados e uma informação muito interessante de que existia um programa chamado Bolsa Escola e, pelo que entendi da explicação, algumas famílias poderiam receber um dinheirinho do governo.

Confesso que minha compreensão sobre políticas públicas não era das mais sofisticadas. Na verdade, eu já estava pensando nas possibilidades de investimento daquele dinheiro, especialmente na barraquinha do Seu Moisés, que vendia lanches na escola e passar na banca para pegar revistas de adolescente e gibis. Afinal, toda criança tem suas prioridades.

Cheguei em casa animadíssima para contar a novidade à minha mãe. Ela, por sua vez, já foi logo encerrando minhas expectativas com uma frase bastante objetiva: “esquece isso porque o governo não dá nada para ninguém”.

Para uma criança, a palavra de mãe tem uma autoridade muito difícil de contestar. Mas algum tempo depois uma colega de classe apareceu com um cartão em questão e contou que sua família realmente recebia o benefício.

Minha mãe estava errada. O governo, aparentemente, dava alguma coisa para alguém, sim.

Foi mais ou menos ali que comecei a prestar atenção na existência de programas sociais e, consequentemente, na política. Não porque tivesse desenvolvido uma consciência social, eu era muito criança pra isso, mas porque eu estava descobrindo que decisões tomadas por pessoas que eu nem conhecia poderiam interferir diretamente na minha vida e na de outras pessoas.

Anos depois, entendi que o programa do qual me lembro havia sido instituído nacionalmente em 2001, durante o governo Fernando Henrique Cardoso, embora experiências semelhantes já existissem em alguns municípios. O Bolsa Escola transferia recursos para famílias de baixa renda, com o objetivo de incentivar a permanência das crianças na escola.

Em 2003, já no governo Lula, o Bolsa Família reuniu o Bolsa Escola e outros programas de transferência de renda. Com o passar dos anos, as políticas de combate à pobreza ganharam maior alcance e passaram a ocupar um lugar importante na relação entre parte da população e o governo.

E é aqui que entra um conceito com um nome que parece título de filme político de gosto muito duvidoso o lulismo selvagem.

Antes de chegar à parte selvagem, precisamos entender o lulismo.

O cientista político André Singer, em um estudo publicado em 2009, procurou explicar uma mudança importante no comportamento de eleitores brasileiros. Em 2006, Lula passou a receber um apoio expressivo da população de renda muito baixa, que antes não fazia parte de sua principal base eleitoral. Para Singer, a combinação entre estabilidade econômica e políticas de redução da desigualdade ajudavam a explicar essa mudança.

Simplificando isso é que muita gente que antes desconfiava de Lula passou a enxergar naquele governo uma possibilidade concreta de melhorar de vida.

Mas… o que acontece quando as condições de vida melhoram e as pessoas começam a desejar mais?

Foi a partir de discussões como essa, especialmente durante as manifestações de 2013, que Bruno Cava e Giuseppe Cocco desenvolveram a ideia de lulismo selvagem.

Na interpretação desses autores, as transformações sociais ocorridas durante os governos petistas também contribuíram para ampliar a capacidade de organização e mobilização de parcelas da população. Só que essas pessoas não necessariamente continuariam seguindo os caminhos imaginados pelo governo ou pelos partidos.

O termo “selvagem”, nesse caso, não significa violência ou falta de educação. Se refere a uma força política que não cabe inteiramente no controle das instituições.

Em 2013, manifestações que começaram com reivindicações contra o aumento das tarifas do transporte público ganharam grandes proporções. As ruas passaram a reunir insatisfações com transporte, saúde, educação, representação política e tantos outros problemas. As mobilizações eram diversas, contraditórias e nem sempre apontavam para os mesmos objetivos.

Para Cava, havia ali uma contradição interessante de que políticas que ajudaram a ampliar oportunidades também poderiam contribuir para formar uma população que exigia mais do que o próprio governo estava disposto ou conseguia oferecer.

Essa é uma interpretação das manifestações, não uma explicação única para tudo o que aconteceu naquele período.

Acho que esse seja justamente o ponto que mais me interesse no conceito.

Uma política social não precisa produzir gratidão política permanente. O fato de uma pessoa melhorar de vida durante determinado governo não significa que ela esteja obrigada a concordar com todas as decisões tomadas por ele. Também não significa que todas as políticas sejam suficientes, que seus resultados sejam iguais para todos ou que qualquer reivindicação popular esteja automaticamente correta.

A população não é uma extensão dos partidos políticos. Muito menos uma torcida organizada com obrigação de aplaudir o técnico, mesmo quando o time está perdendo.

Hoje, quando olho para aquela lembrança de infância, percebo como ela ajuda a explicar minha relação com a política. Minha mãe estava desconfiada, eu estava interessada na possibilidade de comprar lanches e revistas e minha colega tinha um cartão que transformava uma conversa que parecia ser improvável em algo concreto.

É claro que meu desejo infantil de comprar coisas aleatórias não tinha nada de revolucionário. Mas aquela experiência me apresentou uma pergunta que, de alguma maneira, continua comigo: qual deve ser o papel do Estado na vida das pessoas?

Com o tempo, outras perguntas apareceram. Quem decide quais necessidades merecem atenção? Quem participa dessas decisões? E por que, tantas e tantas vezes, a população é chamada a participar da política, mas encontra resistência quando começa a questionar seus representantes?

Não precisamos concordar integralmente com a ideia de lulismo selvagem para reconhecer que existe algo interessante nessa discussão de que o povo não é apenas destinatário das decisões de um governo. Mas também é capaz de construir suas próprias reivindicações, organizações e caminhos.

E políticas sociais, embora dependam de decisões governamentais, não podem ser tratadas como presentes pessoais de quem ocupa um cargo público.

Naquele contexto, acho que minha mãe tinha toda razão em desconfiar de certas promessas dos governos. Mas também acredito que não precisava ter acabado tão depressa com meus planos de consumos necessários para a minha idade.

No fim das contas, a política ainda pode ter muito a ver com aquilo que descobri quando criança, sobre a possibilidade de imaginar uma vida com mais oportunidades.

E, principalmente, de compreender que ninguém precisa se contentar apenas com o que decidiram oferecer.

Para quem se interessar estão ai as referências

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